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Casual Auditores na Mídia
Revista Razão Contábil - Setembro de 2005
Jogador fora gol a favor
A venda de atletas é a maior fonte de receita para os clubes de futebol brasileiros, revela análise contábil dos 19 maiores.
POR CLAUDIA IZIQUE
Imagem do Jogador Robinho embarcando em direção ao estrelato internacional como novo atleta do Real Madrid expressa literalmente a realidade dos clubes de futebol brasileiros: a melhor saída para eles ainda é aeroporto. A venda de jogadores para outros clubes, sobretudo os estrangeiros, é a principal fonte de receita - 30% em média - dos 19 maiores times brasileiros. Em média, saem dois atletas por dia do País. Fervor de torcida não conta
muito, pois os ganhos com bilheteria ficam lá embaixo, nos 7%. A radiografia da situação financeira dos clubes é resultado de uma análise da empresa de auditoria Casual Auditores
Independentes, que verificou as demonstrações contábeis dos que tiveram receita superior a
R$ 10 milhões em 2003 e a R$ 15 milhões em 2004.
Em alguns casos a negociação de atletas atingiu a marca de 65% da receita em 2004, sublinha Carlos Aragaki, sócio da Casual. Em outros até mudou o status do clube. A transferência de direitos federativos do atacante Kaká, do São Paulo FutebolClube para o Milan, em 2003, por exemplo, melhorou o desempenho financeiro do clube que fechou aquele ano com um resultado de R$ 95 milhões. Em 2004, sem fazer nenhum grande negócio, os resultados foram negativos e o clube amargou um vermelho de R$ 1,9 milhão. Feitas as contas, a Casual constatou que a venda de atletas rendeu R$ 192 milhões para 14 clubes, sem contabilizar os negócios do Cruzeiro, Atlético Mineiro, Vasco da Gama, Grêmio e Guarani que não divulgaram. A análise revela ainda que em 2004 poucos clubes ultrapassaram a marca de R$ 5 milhões com a venda de ingressos, com exceção do São Paulo (R$ 7,4 milhões), Corinthians (R$ 5,1 milhões) e Bahia (R$ 5,09 milhões).
A partir desses dados, e com informações de média de público nas partidas do Campeonato Brasileiro 2004 obtidas com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), foram construídos indicadores, entre eles, o percentual de ocupação dos estádios. No ranking destacaram-se as torcidas do Santos, Bahia, Flamengo e Palmeiras. "Numa partida em um
estádio imenso como é o Mineirão, com 80 mil lugares, o Cruzeiro obteve, em média, 7% de bilheteria. Já na Vila Belmiro em Santos - um estádio pequeno, e ainda com Robinho em campo atraindo a torcida, os jogos garantiram ao Santos 64% de ocupação", compara Aragaki. O mesmo argumento explica o desempenho do Bahia, Flamengo e Palmeiras.
Na opinião do auditor, os clubes de futebol deveriam avaliar a possibilidade de desenvolver projetos de diversificaçãode receitas focados na arrecadação dos jogos, exploração comercial de marcas e mídias alternativas, gerando recursos diretamente de seus torcedores.
Lembra o exemplo dos times europeus que, por meio da venda de carnês para todos os jogos do campeonato, conseguiram elevar a taxa de ocupação dos estádios e aumentar significativamente a renda de bilheteria. "Caso o futuro indique que a diversificação de receitas é o caminho mais adequado, os clubes dependerão cada vez menos da negociação de atletas, cotas de TV e recursos de patrocinadores e assim criarão condições de manter seus melhores jogadores por mais tempo, fazendo da sua gestão um ciclo virtuoso de geração de receitas", sugere Aragaki.
Contas fechadas
As informações financeiras dos clubes selecionados foram compiladas das demonstrações contábeis publicadas em jornais, uma exigência da Medida Provisória nº 79, editada em 2002. A tarefa de coletar esses dados, no entanto, não foi fácil: muitos clubes preferiram abrir suas contas em jornais regionais, de pequena circulação, o que dificultou a pesquisa. "A nossa intenção é colaborar para o aprimoramento do balanço dos times de futebol, já que o Conselho Federal de Contabilidade já emitiu resolução para a padronização das demonstrações contábeis", explica Aragaki. Um antigo mito cai por terra com o levantamento da Casual: o dos times milionários. Juntos, os 19 clubes geraram R$ 825,75 milhões de receita em 2004. O valor é irrisório, quando se vê que corresponde a apenas 2,75% do faturamento total da indústria do Esporte no Brasil. Piora quando se tira a relação
com o Produto Interno Bruto (PIB) nacional - é de 0,04% - ou quando comparado aos resultados registrados por um único clube europeu do porte, por exemplo, do Manchester United, de acordo com Aragaki.
Se fossem empresas, muitos clubes estariam falidos: 74% deles apresentaram déficits acumulados de R$ 818,90 milhões em 2004. O Flamengo é campeão, com dívidas de R$ 176, 7 milhões. O Botafogo carioca vem em seguida (déficit R$ 149,8 milhões) e depois o Atlético Mineiro (R$ 134 milhões). "Esse déficit é herança do passado e diz respeito a contingências trabalhistas, dívidas de Imposto de Renda e com a Previdência Social", explica Aragaki.
Corinthians com mais caixa
O time mais rico, com maior receita em 2004, é o Corinthians: fechou o ano com R$ 100,2 milhões em caixa. Graças a um aporte de recursos de R$ 53,1 milhões do MSI, o clube registrou variação positiva de 82% nos seus resultados e um superávit de R$ 17,2 milhões. "A receita subiu bastante. Resta saber se será realizada, se vai se transformar em recursos para o clube, já que ela é contabilizada pela competência", ressalva o diretor da Casual.
A maior parte dos clubes, entidades sem fins lucrativos (com exceção dos baianos Vitória e Bahia,que têm S/A como sobrenome), ainda é deficitária. Já o São Caetano, que optou por tornar-se uma empresa limitada, lucrou R$ 5,3 milhões em 2004. Entre os 19 clubes analisados, 13 tinham patrimônio líquido positivo em 2004, num total de R$ 769,4 milhões. Os demais estavam com o passivo a descoberto de algo em torno de R$ 397 milhões em razão de déficits acumulados. A partir das informações contábeis dos times, a Casual Auditores Independentes construiu uma série de indicadores contábeis e de gestão. O Vasco da Gama, por exemplo, ganhou o título de campeão em endividamento, medido pela relação entre o passivo total e o patrimônio líquido. Em situação não menos desconfortável estão o Internacional gaúcho, o Atlético paranaense e o Grêmio gaúcho que manteve seu patrimônio líquido positivo em razão de uma reavaliação de ativos.Noutro indicador, a rentabilidade sobre ativos, o destaque ficou para o São Caetano que, como explica Aragaki, é um time que não tem clube. No caso do São Paulo, que tem clube e 82% do ativo imobilizado, os resultados foram negativos.